quarta-feira, 14 de julho de 2010

Felicidade Clandestina (CL.)


"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade". Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte"com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Projeto paralelo... Dale Pitty!


O próprio nome já diz tudo. E finalmente, eis que veio a minha atenção, pelo twitter, um projeto da minha querida Pitty, juntamente com o Martin, guitarrista da banda dela. Chama-se "Agridoce". Por que será hein? :D
É lógico que a minha opinião sobre qualquer trabalho musical que envolva a Pitty nunca será levada em conta visto que sou super suspeita para falar, mas apesar disso, confirmo que o trabalho deles é super interessante. Vale a pena ouvir. Ainda que para chorar com a música tocando ao fundo.
As canções (apenas duas, até agora) têm um arranjo diferente do que estamos acostumados a ouvir a Pitty tocar. Em ambas, há apenas a presença do piano e do violão.
Logo que ouvi a canção 'Dançando' e 'Epílogos e Finais' me lembrei das trilhas sonoras de séries americanas que estou acostumada a assistir.
Esse Projeto AGRIDOCE vai deixar você com um gostinho diferente na 'boca'. Eu gostei muito! Não apenas por conta da Pitty ou porque tenho uma queda pelo Martin, mas principalmente porque as músicas são muito boas e me enche de entusiasmo vê-los inovando, tentando algo diferente.

Portanto, fica a dica! ;)

Ah, se alguém quiser ouvir é só chegar no MySpace deles: http://www.myspace.com/somagridoce

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Arte em Ser do Contra







Para a maioria das pessoas, ser do contra é visto como uma coisa ruim. A pessoa que não "vai com as outras" é vista como polêmica (alguém que gosta de causar). Não concordo com essa afirmação. Eu sou do contra!
A Arte DO SER do Contra não é assim. A pessoa que se enquadra nessa frase não é, necessariamente, aquela que se posiciona CONTRA a sociedade e/ou suas normas. Para mim, ser DO CONTRA é ser VOCÊ MESMO! Ainda que não se encaixe na opinião dominante, você é você, sem se importar.

Achei na internet uma explicação super legal sobre O SER do Contra. O texto dizia: "Ninguém gosta de soja, jiló, segunda-feira e você adora. Todo mundo se acaba em show de música e você cochila. ToDo MUndU EsCrEvE Axim e ErRaDu, porque eH mudernU, bunitinhU e você insiste em escrever o seu idioma corretamente."


Basicamente, é assim que o Ser do Contra se comporta. Ele vive num mundo onde se enquadrar sem se encaixar não funciona. O Ser do Contra tem personalidade. Ele "aceita os meios pra alcançar o fim". E qual o problema em ser diferente?

Se você gosta de preto quando todo mundo gosta de rosa, beleza! É o seu gosto! Por que tem que mudar? Se você é carioca e odeia sol, uhuull! Não é só porque nasceu no Rio que tem que gostar de sol, praia e bronze. (Mas é meio estranho não gostar rs)

Portanto, assuma seus gostos. Se você não é do contra, beleza! Você não é! Se você se enquadra, beleza também. Mas tenha personalidade! Assuma-a. Gostando do que todo mundo gosta ou não. Todos temos o direito de escolha. Ainda que alguém que a gente conheça pense ou diga que não temos ou que não tivemos.

Eu Sou do Contra. Dentro das minhas limitações e do meu mundo.




POEMINHA DO CONTRA

"Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!"

(Mário Quintana)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

... Ela (CL.)



"... Ela, na sua magnífica força e coragem, aprendeu a ser livre; a gritar quando tem vontade, a chorar quando precisar chorar e a sorrir mesmo quando a situação não permitir sorrir. E, perante os olhos intimadores das pessoas e de tamanha curiosidade, ela levantou a cabeça e mostrou que não era uma boneca de porcelana, mas que podia ser quebrada várias vezes e que sempre conseguia se juntar sem perder nenhum dos pedaços".

quarta-feira, 23 de junho de 2010

No Recreio (Cássia Eller)

Quer saber quando te olhei na piscina
Se apoiando com as mãos na borda
Fervendo a água que não era tão fria
E um azulejo se partiu porque a porta
Do nosso amor estava se abrindo
E os pés que irão por esse caminho
Vão terminar no altar, eu só queria me casar
Com alguém igual a você
E alguém igual não há de ter
Então quero mudar de lugar, eu quero estar no lugar
Da sala pra te receber
Na cor do esmalte que você vai escolher
Só para as unhas pintar
Quando é que você vai sacar?
Que o vão que fazem suas mãos
É só porque você não está comigo

Só é possível te amar...

Seus pés se espalham em fivela e sandália
E o chão se abre por dois sorrisos
Virão guiando o seu corpo que é praia
De um escândalo charme macio
Que cor terá se derreter?
Que som os lábios vão morder?
Vem me ensinar a falar
Vem me ensinar ter você
Na minha boca agora mora o teu nome
É a vista que os meus olhos querem ter
Sem precisar procurar
Nem descansar e adormecer
Não quero acreditar que vou gastar desse modo a vida
Olhar pro sol só ver janela e cortina
No meu coração fiz um lar
O meu coração é o teu lar
E de que me adianta tanta mobília
Se você não está comigo

Só é possível te amar
Ouve os sinos, amor
Só é possível te amar
Escorre aos litros, o amor


*AMO INCONDICIONALMENTE ESTA CANÇÃO!!!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Prêmio Dardos


Pois bem, como me foi recomendado, aqui estou para divulgar o prêmio Dardos que é dado a pessoas que de alguma maneira engrandecem o nosso limitado conhecimento.
Eu o recebi da Natty e confesso estar honradíssima pela indicação. Ao menos ela se dá ao trabalho de ler as bobagens que vez por outra resolvo postar aqui. E se bem a conheço, tenho certeza que a indicação foi sincera.

Agora é a minha vez de indicar outras pessoas (15 né) para receberem o prêmio também.
Acredito que não passarão de 10, e isso sendo otimista, mas vou tentar.

Não planejei uma ordem, mas a 1ª pessoa da lista merece realmente o 1º lugar.
Como foi ela quem me incentivou a ter um blog, a pensar publicamente, por assim dizer, o podium vai para ela, (pena que ela parou de postar, porque escreve lindamente bem) mas...

Recebendo a indicação, faça o seguinte:

Tarefas: Quem recebe o selo Dardos deve (1) exibir a imagem do selo em seu blog; (2) linkar o blog pelo qual recebeu a indicação; (3) escolher outros 15 (quinze) blogs a quem entregar o prêmio Dardos e (4) avisar os escolhidos.



Vâmos lá:


Wendy White Poulain

Natty

Lucy Queen

Bolacha

Betah Soarez

Rachel Cordeiro

Blogildo

Carol Molais

Lilia Celestino

Leilah

Prof. Dilson Catarino

sábado, 5 de junho de 2010

"Às vezes me dá enjoo de gente..." CL



"Sra Clarice, eu sinto a mesma coisa."

Estas seriam minhas palavras caso pudesse dizê-las pessoalmente.

Sempre que leio as obras de Clarice Lispector me identifico com seus devaneios. E quem não?
Esta frase é uma das mais singulares pra mim, porque eu realmente enjoo de gente, às vezes. E nessas horas é bom recorrer a um gato. Sim, um gato. Afagá-lo pensando na vida é uma boa maneira de colocar a mente no lugar, de relaxar, de ficar só sem estar só...

Para quem tem um gato, aqui vai um conselho: faça isso. É tão bom.



Muita coisa a escrever, mas agora ainda não é hora. Não afaguei meu gato o suficiente. Ainda estou enjoada.